O artista

Mágico do arame

Nagoya expondo suas peças na praça, com mais ou menos 18 anos.

Nagoya expondo suas peças na praça, com mais ou menos 18 anos.

Antônio Wilson Nagoya sempre viveu de suas próprias mãos. Nascido em 1950, na cidade de Taquarituba, interior de São Paulo, quando garoto já mostrava uma criatividade impar nas brincadeiras, construindo estradas e casinhas com areia e madeira, tanto que a mãe de um coleguinha afirmou impressionada: “esse menino vai ser engenheiro”. Porém, a falta de paciência e inaptidão com o sistema escolar o levou para outro caminho.

Teve seu primeiro emprego aos nove anos após um castigo aplicado pelo pai devido às notas baixas. Mas a escola ainda era sua maior punição, já que gostava de ser ajudante em uma bicicletaria local. Apesar disso, a experiência não durou muito, já que a sujeira de graxa nas roupas não agradava nem um pouco sua mãe. Passou a trabalhar em uma farmácia, onde, entre outras tarefas, percorria a cidadezinha de Taquarituba para aplicar injeção nas pessoas.

A vida na cidade

Aos treze anos, mudou-se com os pais e as quatro irmãs para São Paulo. No início a adaptação foi um pouco complicada, Nagoya se recorda de treinar para perder o sotaque caipira, alvo de gozação das outras crianças. Mesmo assim, não se intimidou com a cidade grande e desde cedo circulava pelos ônibus em direção ao centro.

Na escola, fez amizades e era conhecido pela simpatia, bom humor e por visitar com frequência a sala da direção. As notas, continuavam baixas. Por isso, não demorou para arranjar uma vaga em uma loja de conserto de máquinas de escrever.

Aprendeu rapidamente e passou a autofabricar as peças que quebravam, a facilidade foi tanta que o dono da loja o convidou para fazer um curso em uma empresa importante do ramo, mas a proposta não interessou o jovem. Também trabalhou em uma loja de autorama, onde aperfeiçoou a técnica de soldagem, que veio a ser fundamental em suas criações futuras.

Caminho alternativo

Decidido a não continuar os estudos, Nagoya completou o supletivo do ginásio aos 18 anos. Por indicação de uma de suas irmãs, conseguiu ingressar em uma empresa de cartões perfurados, utilizados para incluir dados e comandos nos primeiros computadores. Apesar de aprender rápido, ele não se encaixou no ambiente, que era fechado e sem interação.

Após aceitar o convite de um primo para vender bolsas na Praça da República durante um domingo e trabalhar sentado no chão, se divertindo e conversando com os clientes, seu emprego perfurando cartões não durou muito. Ao se demitir, ouviu do chefe, “você está louco? Isso é o futuro!” e simplesmente respondeu, “prefiro virar hippie”.

Passou a fabricar e vender bolsas, cintos, suspensórios, tamancos e outros artefatos, trabalhando principalmente com couro, madeira e arame. Além do centro da cidade, participava de feiras de artesanato no interior e viajava pelas praias do litoral vendendo suas peças. Porém, foi quando começou a criar bijuterias que percebeu um grande avanço em seu negócio.

Nova realidade

Com o tempo, a renda de seu artesanato, que antes era suficiente para se sustentar e bancar suas viagens, cresceu e passou a ajudar na criação de dois filhos, nascidos no final dos anos 80. Vendia para lojas e grandes magazines. Até que em 1992, com a abertura da exportação de bijuterias no país, a situação ficou complicada. A mercadoria chinesa era muito barata e, apesar da qualidade inferior, levou diversas fábricas e vendedores à falência.

Quebrado, Nagoya decidiu agarrar uma oportunidade de trabalhar no exterior. Devido a sua descendência japonesa, viajou à cidade de Hikone para ser operário, soldando canos. Poucos dias após sua chegada, utilizou as máquinas da indústria e alguns arames para criar um veleiro decorativo e presenteou seu chefe, que impressionado o questionou sobre seus conhecimentos em construir maquetes. Apesar de não ser especialista, sua habilidade na nova tarefa garantiu a saída do chão de fábrica, um quarto individual e até um tradutor.

Na terra do sol nascente

Um dia se surpreendeu ao ver uma bicicleta novinha, apenas com um defeito na corrente, jogada no lixo, e foi conversar com o dono que afirmou que valia a pena comprar uma nova em vez de mandar arrumar. Inconformado, ajeitou a bicicleta e a ganhou de presente, já que o antigo dono já tinha uma nova. Passou a consertar diversos objetos, até que foi chamado na sala do chefe, pois um dos diamantes do seu relógio de ouro havia caído, após uma simples colagem foi recompensado com uma viagem e um jantar na cidade de Osaka.

Após oito meses, já contava com um prestígio na empresa, tanto que foi convidado a criar joias de ouro, trabalharia diretamente para o dono. Recusou a oferta já que não tinha experiência com o material, além disso, sofria com a saudade de casa e de seus filhos. Aliás, como ele mesmo conta, a saudade foi a principal causa de uma arritmia que sofreu do outro lado do planeta. Mas não foi fácil voltar, os japoneses dificultaram o processo e queriam cobrar uma multa de dois mil dólares. Somente quando seu cunhado, que é médico e fala japonês, interviu, conseguiu retornar antes do combinado.

Voltando às origens

De volta ao Brasil e perto de sua família, o problema no coração não voltou a atrapalhar, o que permitiu Nagoya a se concentrar em seu trabalho. Com um bom dinheiro guardado, já que ganhou em dólares, bastante valorizado na época, teve mais tranquilidade para pensar seu negócio. Decidiu utilizar arame banhado a Ródio como sua principal matéria prima e apostou na originalidade de sua criação para competir com a bijouteria chinesa.

Aperfeiçoou o veleiro que criou no Japão e o inscreveu em uma exposição da prefeitura de São Paulo. Após ver a peça, uma decoradora entrou em contato pedindo novos trabalhos em arame, desde cestas e luminárias, até suportes para velas e outros objetos, tudo com um design inovador. Também desenvolveu novas miniaturas de helicópteros, aviões e bicicletas, passando a trabalhar exclusivamente com arame.

Continuou expondo seu trabalho em diversas feirinhas de rua até que recebeu um convite inesperado, participar de uma feira de arte e joias que acontecia aos domingos no Shopping Morumbi. Após a oferta, indagou, “mas o que eu faço é artesanato”, e foi rebatido, “o que você faz é arte, só que ainda não sabe disso”.

Fazendo arte

No novo espaço, a aceitação do público foi boa e lhe rendeu uma experiência inusitada, um convite de um professor universitário para dar uma palestra para sua turma. Rindo, Nagoya conta que não aceitou a proposta e que fazia tempo desde que pisara em uma universidade, o que aconteceu somente em sua juventude para vender suas peças ou participar de festas.

Com a abertura das lojas do shopping aos domingos, a feira de arte e joias se extinguiu. Porém, o designer continuou expondo seu trabalho em lugares conceituados, como o Shopping Paulista, Shopping Jardim Sul e Mercado Mundo Mix. Em 2002, ingressou na feira Como Assim?!…, que ocorre aos domingos no Shopping Center 3, permanecendo até novembro de 2013.

Nesse período, decidiu dedicar-se exclusivamente à produção de anéis, brincos e outros acessórios femininos, passando a explorar a beleza de pedras brasileiras e cristais, misturando-os com suas curvas de arame.  Os onze anos de exposição no Center 3, sempre com um atendimento bem humorado, permitiram a Nagoya conquistar um público fiel, que sempre volta a seu stand para conferir as novas ideias e criações.

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8 respostas em “O artista

  1. Conheço o Nagoya desde 1970 quando no ginásio fiquei amiga de uma de suas irmãs. Nessa época ele trabalhava na praça confeccionando tamancos e bolsas de couro…peças lindíssimas que eu usei muito! Nunca mais me esqueci e tenho saudade dessas peças!!! Há pouco tempo em uma ida ao Shopping Paulista ganhei uns anéis dele com pedras, lindos de viver que não tiro do dedo!!! O Nagoya é um artista!!! Sucesso em sua nova empreitada!!!

  2. Linda estoria, linda pessoa!!! Minha admiração e carinho eternos para este grande e super criativo ser humano. Tenho muita gratidão por te-lo como cunhado demais querido! Parabéns Nagoya por mais esta empreitada e do fundo do meu coração vem meu desejo de muuuuuuuuuuuuuito sucesso e tudo de melhor, TUDO!!! Vc merece demais!!!! Bj grande meu lindo

  3. Um dos momentos mais legais da minha juventude foi proporcionado pelo Nagoya e o seu artesanato, quando ele foi para Floripa vender a suas obras, levou junto com seu filho eu e mais vários amigos que estavamos nos formando no colégio. Ele realmente fez a alegria dos moleque, atraves dele alugamos uma casa num lugar muito massa. Durante o dia ele ia vender as joias e realmente é um trabalho incrível, certa presenteei minha namorada com uma joia dele e foi o melhor presente que já dei para uma gata. fica a dica ai para os clientes homens, faz seu nome com a gata grandão presenteá-la com uma trabalho do grande Nagoya!!

  4. Aprendi muito na epoca em que trabalhei com ele , hoje graças a este aprendizado acabei fazendo minhas peças também, saudade Nagoya , muito sucesso sempre, beijo Sofia

  5. Adorei, que linda história Nagoya!!!
    Apaixonada por uma anel que enrola no dedo…com as pontas em cristal. Eu não conseguia sair sem meu anel de dedinho rs. Nagoya acredito que ja comprei mais de 15 aneis e idênticos. A cada caixa de loja, de padaria e até em uma balada no Piove rsrs….no momento de pagar eu, colocava as mãos na carteira ahhhh….as meninas se apaixonavam por aquele anel enroladinho em meu dedinho, e todas diziam….ahhhh que lindooo eu quero um rsrs…… muitos eu dei Nagoya de tanto que gostavam…..
    Esta semana eu consegui passar na Augusta onde vc estava…..e um moço me passou seu site.
    Parabéns….sua arte tem vida, tem emoção, tem movimento e leveza em todas as peças.
    Beijo (quero encomendar uns 10 – de cristal e cristal fruta cor)

  6. Que linda história! Amo o trabalho do Nagoya, tenho várias peças dele e falo dele para todas as minhas amigas. Fiquei triste por não achá-lo mais na Augusta… passava quase toda semana para olhar e comprar peças.

  7. Parabéns, Nagoya seu trabalho é belíssimo, adquirir peças suas achei super originais. Que Deus abençoe esse seu talento por muito tempo.

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